
Em 2025, o centro de Curitiba passou por um processo intenso de transformação urbana e valorização imobiliária, impulsionado pelo programa municipal "Curitiba de Volta ao Centro". Esse movimento gerou um debate acalorado sobre a gentrificação — o processo em que a revitalização de uma área resulta no aumento do custo de vida e na consequente expulsão de moradores de menor renda.
Diante de situações como essa e que não são isoladas apenas a capital paranaense, o artigo “Cidade para quem? Gentrificação e a luta pelo direito à moradia” do aluno de bacharelado em Direito da Unifacear, Lucas Burda Zottos do Quadro sob orientação do professor Eduardo Schamne Barbosa, analisa como um processo associado a requalificação de áreas centrais das cidades gera impactos sociais significativos, especialmente para a população de baixa renda.
A pesquisa discute a gentrificação como resultado de políticas urbanas, investimentos públicos e privados e dinâmicas do mercado imobiliário, evidenciando como esse processo contribui para a segregação socioespacial e a redefinição do uso do solo urbano. O estudo enfatiza a necessidade de planejamento urbano mais inclusivo, capaz de conciliar desenvolvimento econômico, direito à cidade e justiça social.
Entre os temas abordados estão as transformações urbanas nas áreas centrais e periféricas, a valorização imobiliária e especulação urbana, a relação entre gentrificação e desigualdade social, segregação socioespacial nas cidades contemporâneas, entre outros.
O termo “gentrificação” surgiu em 1960 com a socióloga Ruth Glass ao visualizar as transformações urbanas em bairros operários da gelada Londres. O processo está diretamente ligado a incentivos à iniciativa privada e investimentos em infraestrutura urbana. Porém, os efeitos são catastróficos. O aumento do valor dos aluguéis e imóveis, mudança do perfil socioeconômico dos moradores e a substituição de comércios e serviços tradicionais. Os autores ainda descontam que esse movimento não é espontâneo, mas influenciado por decisões políticas. No caso de Curitiba, a prefeitura liberou a isenção ou redução de impostos como IPTU e ISS para obras de restauro e retrofit (modernização de prédios antigos) e a possibilidade de custear até 50% das obras de revitalização de prédios históricos. O resultado foi uma explosão nos preços dos aluguéis na região ao longo de 2025 que alcançou a marca de 48%, cerca de R$10.250 por metro quadrado.
O estudo conclui que a gentrificação é um processo complexo e contraditório, que ao mesmo tempo em que promove melhorias urbanas e dinamiza a economia local, acentua desigualdades sociais e territoriais. A expulsão indireta de moradores historicamente estabelecidos compromete o direito à cidade e fragiliza vínculos sociais e culturais.
Os autores defendem que políticas públicas de habitação, planejamento urbano participativo e instrumentos de controle do uso do solo são fundamentais para mitigar os efeitos negativos da gentrificação. O artigo reforça que o desenvolvimento urbano não deve ser medido apenas pela valorização econômica dos espaços, mas também pela capacidade de garantir inclusão social, diversidade e permanência das populações locais.
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